Violência no campo maranhense: Conzinhado presente!

A insustentável violência no campo maranhense: Conzinhado presente!

O “choque de capitalismo” prometido pelo atual governo do Maranhão está dilacerando povos originários e comunidades tradicionais do Estado. Literalmente.

Desta vez, a vítima foi o camponês JOÃO DE DEUS MOREIRA RODRIGUES, conhecido como “Conzinhado”, 51 anos, assassinado no início da noite da última sexta-feira, 29 de outubro de 2021, em frente a sua casa, no Povoado Santo Antônio, zona rural da cidade de Arari, região do Médio Mearim maranhense.

Esta é, infelizmente, mais uma crônica de morte anunciada. Somente na região de Arari, nos últimos 2 anos já assassinaram 4 lavradores: Jucelino Fernandes, Wanderson de Jesus Fernandes, Antônio Gonçalo Diniz e agora João de Deus Moreira Rodrigues, segundo levantamento do Fóruns e Redes de Cidadania do Maranhão divulgado em Carta publicada ainda na noite da sexta-feira.

Dessa forma, as autoridades não podem alegar estarem surpresas com essa situação, que vem vitimando camponeses, indígenas, quilombolas, entre outros povos tradicionais, frente ao poderio não apenas do latifúndio e da grilagem em sua formação mais “primitiva”, mas também daquilo que se apresenta como o que há de mais avançado no capitalismo que vem eletrocutando o Maranhão, muitas vezes com apoio do Governo do Estado, que nacionalmente vende uma imagem progressista, mas que localmente pouco faz para impedir esse massacre.

É assim, por exemplo, com as diversas comunidades impactadas pela empresa EDP Energias do Brasil, com seus linhões e torres de transmissão sobre os campos naturais da Baixada Maranhense; ocorre ainda com o controverso porto na comunidade do Cajueiro; com os ataques que recentemente vitimaram a comunidade quilombola de Tanque da Rodagem, município de Matões; ou o estouro da barragem da mineradora Aurizona na comunidade de mesmo nome, no município de Godofredo Viana. Quem não lembra, ainda, dos ataques contra os indígenas Gamela, também na Baixada Maranhense, que, até onde se sabe, foram estimulados por um deputado federal numa rádio local? Ou dos diversos assassinatos que mancham o campo maranhense e seguem sem resposta? Quem matou, por exemplo, o casal de camponeses Reginaldo Alves Barros e Maria da Luz Benício de Souza, chacinado na cidade Junco? Isso apenas para ficar em alguns exemplos.

Não se pode conceber que um governo dito popular, que tem papel fundamental na resistência contra o neofascismo brasileiro, faça silêncio ante a essa situação.

Não se pode admitir, sequer, que tal governo, que requer papel tão necessário e de tamanha importância no cenário nacional – e que em alguns casos o cumpre – , tome posturas seletivas, como também não apenas silencie ou tente minimizar a gravidade do que está acontecendo, mas, ainda, em vários desses casos, alie-se aos algozes ante o massacre, invisibilizando as vozes dos atingidos, desmentindo suas falas em meios de comunicação oficiais ou não, ou utilizando do seu poderio militar nesse processo violento de silenciamento, como já ocorreu, a exemplo do caso do Cajueiro. Menos ainda que não cumpra o papel de investigar os casos que são da competência das forças policiais do Estado: há que se fazer justiça a todas essas vítimas.

Em meio a isso tudo, cobramos ainda que um governo que diz se mover pelo respeito aos direitos humanos aja como tal.

Nesse sentido, com tanto trabalho a se fazer no campo e na cidade em razão dos crimes cometidos contra lutadoras e lutadores sociais, é inaceitável também, como já se pronunciou a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, declarações de autoridades que deem margem para interpretar como legítimas execuções como as ocorridas durante a última onda de violência em São Luís, várias delas em comunidades da periferia.

Para apurar todo esse “banho de sangue” que corre no Maranhão, é preciso se mover realmente com observância estrita dos direitos humanos, em observância ainda do devido processo legal. E que as autoridades locais deixem o silêncio ante a toda essa situação, que não pode seguir como sendo algo de absoluta normalidade. Em respeito às vítimas, aos direitos humanos e a todo o povo do Maranhão, é necessário um posicionamento urgente.

 

Redação da Apruma