ARTIGO: “Superar o ativismo reativo”

SUPERAR O ATIVISMO REATIVO

Joana A. Coutinho *

John Kennedy Ferreira

Marilande Martins Abreu

Odair Monteiro

Ulisses Nascimento

 

 

INTRODUÇÃO

Desde os fins da década de 1970 que o Brasil desenvolveu como resposta a ditadura um ativismo reativo: foi notável no sindicalismo do ABCD, e no surgimento de lideranças expressivas, mas também teve sua forte marca no Movimento Estudantil que também forneceu uma gama de líderes políticos ao longo desses anos.

O “ativismo”, que reage conforme é atacada, mostrou seu imenso valor e começou a conhecer sua decadência, a partir dos anos 1990, com a entrada do neoliberalismo no país. Aos poucos foram surgindo outras concepções de ativismo como: o ativismo de compromisso; pelego; de acordos; de resultados que se somaram ao ativismo reativo e funcionou bem durante a gestão democrática do Estado.

A partir do Golpe de Estado de 2016 tivemos o colapso das mediações entre as demandas populares e o Estado. A lógica reacionária de “cancelar” o oponente foi posta em prática a partir de 2016 e formas de privilegiar a negociação direta enfraquecendo os movimentos, em especial o sindical, ganharam notoriedade.

É necessário pensar os limites colocados e imaginar― e praticar― novas formas de ação que possibilitem superar esses limites.

Pensamos essa carta como uma contribuição ao debate que enfrentamos no ativismo geral e em particular na UFMA

A crise do movimento e o que temos hoje?

O ativismo reativo começou a ser derrotado após 13 anos de governos transigentes e mesmo simpáticos a determinadas demandas sociais; ou seja, começou a ser derrotado junto com a democracia brasileira. Uma de suas principais marcas foi pressionar por baixo através de demandas econômicas e fazer política por cima, junto as instâncias do Estado. Não foi à toa que durante alguns anos tivemos diversos líderes sindicais, sociais, sem-terra, estudantis com presença nas diversas legislaturas nacionais.

Evidente que uma prática profissional cria uma burocracia e produz, por um lado, a uma prática elitista. A disputa por cargos, por presença nos aparelhos, pelos privilégios que esses aparelhos possibilitavam afastaram e aproximaram as lideranças das políticas de Estado e, por outro lado, afastou os líderes de suas bases. O distanciamento revela-se, com privilégios e prestígios materiais e imateriais. Por sua vez, isso não chega nem perto dos benefícios que tem um dirigente sindical de um grande sindicato ou de uma Central sindical. Essa relação diferenciada criou uma verdadeira camada privilegiada dentro das instituições populares. O resultado é que boa parte dessas instituições perderam a credibilidade e mesmo a capacidade mobilizadora na hora em que a realidade se apresentou neoliberal e golpista.

De 2017 para cá, tivemos uma redução de verbas na educação e ciência superior a 55% do orçamento, ou seja, em 2017 a verba era de 122 bilhões e hoje mal ultrapassa 70 bilhões. A maioria das universidades só estão funcionando por conta do trabalho remoto se voltar às aulas presenciais nos próximos dias mais de 50% das universidades não conseguem abrir as portas. No caso da UFMA em especifico, se abrir amanhã não terá como manter a luz, o RU funcionando e nem manter a precária manutenção que tem sido feita.

Do Golpe para cá, tivemos a PEC do Corte de Gastos (55-2016) que comprometeu as verbas públicas, bolsas de estudos, investimentos em educação e infraestrutura e os salários dos servidores em 20 anos. A Reforma da Previdência retirou o direito à aposentadoria integral de boa parte dos servidores e mesmo o direito à aposentadoria de uma boa parte dos trabalhadores brasileiros. A Reforma Trabalhista que precarizou o mercado de trabalho aos jovens universitários e agora, a contra-Reforma Administrativa (PEC 32-2020), que desmonta os serviços públicos em nível nacional e a educação e a universidade pública em particular, com a perda de sua autonomia e a privatização de suas pesquisas e docência.

O QUE ESTÁ SENDO FEITO? E O QUE FAZER?

Frente a esse imenso ataque primeiro dos neoliberais conservadores (Temer) e agora dos neoliberais proto-fascista (Bolsonaro), as táticas do ativismo, mantém-se Reativo, correm em parlamentos aliados, fazem assembléias esvaziadas, conversas na sua segura bolha, fazem manifestações apenas da vanguarda e tentam preservar seu aparelho político, seu prestigio grupal e pessoal, não encaram a realidade e as modificações que estão em curso.

De um modo quase ingénuo, imaginam que terminando o mandato proto fascista, ele voltará para casa e as suas medidas serão revogadas em uma penada. Parece não perceber que há uma possibilidade de um novo golpe em curso, que há séria possibilidade de não termos eleições em 2022, que podem criar uma emenda que impedem candidatos que já foram presidentes da disputa ou ainda, estabelecer o semi-presidencialismo…não encaram a realidade.

OU SEJA, se durante o período democrático a prática burocrática profissional (e não rara sectária) de manter o aparelho a uma corrente X ou Y significava mais poder de barganha em negociações institucionais, a ofensiva neoliberal tirou isso de cena. Hoje os sindicatos, DCEs, UNE, Partidos, movimentos sociais…, precisam repensar seu papel na sociedade, renovar suas práticas, precisam se refundar enquanto movimentos sociais. Pois hoje, as entidades populares são vendidas como espaço de privilegiados, bandidos, parasitas… gente que ganha com a contribuição financeira dos estudantes e trabalhadores.

É preciso refazer tudo.

Os cortes de verbas têm reduzido o aparelho das entidades sociais, muitos sindicatos e entidades estão fechando suas portas, pois não têm como se manterem. Durante anos predominou a lógica de fazer entidades minúsculas que se tornou até prática de sectários e de oportunistas, pois viria uma contribuição real e palpável e a capacidade de ter prestigio junto a instituições do Estado.

As divergências reais ou fictícias foram não raras resolvidas com “rachas” e desse modo temos 4 ou 5 entidades dentro da mesma base e ainda, 19 Centrais Sindicais incapazes de fazer uma movimentação nacional séria. Sendo urgente abrir o debate social da construção de um CONCLAT (Congresso das Classes Trabalhadoras) capaz de unificar e fortalecer democraticamente e proporcionalmente o Movimento Sindical.

Hoje as entidades estão distantes das bases, é preciso voltar às bases. No nosso caso, é preciso “correr” as classes de aulas, os departamentos, conhecer as práticas cotidianas, vivenciar o dia-a-dia, saber os nomes das pessoas e a sua realidade ― e não só daqueles que apoiam―, é preciso buscar e aprofundar, conhecer a linguagem da maioria, poder dialogar com ela.

Para isso, não basta palavras de ordem vazias, tipo: queremos uma Universidade democrática e de todos! É preciso mostrar os caminhos de como fazê-la, é preciso ter o programa de como fazê-la é preciso disputar os espaços e torná-los nosso espaços. Sem a construção de um programa nascido através de congressos, encontros feitos a partir de participação real da base, dificilmente mudaremos os rumos da ação golpista e dificilmente conseguiremos enfrentar o desmonte do Estado brasileiro.

 


* Professores e professoras da Universidade Federal do Maranhão