Artigo “As lágrimas de Poliana: análise de conjuntura”, do Grupo de Estudo e Pesquisas em Ontologia do Pensamento Social/UFMA

AS LÁGRIMAS DE POLIANA

 

Analise de Conjuntura do GEPOPS* (Grupo de Estudo e Pesquisas em Ontologia do Pensamento Social/UFMA)

Junho de 2020

Introdução

 

“O modo de produção capitalista reúne a população em grandes centros e faz com que a população urbana alcance uma preponderância sempre crescente….(…) a interação metabólica entre o homem e a terra, ou seja, impede o retorno ao solo de seus elementos constituintes consumidos pelo homem na forma de alimentos e roupas; portanto, dificulta a operação da eterna condição natural para a fertilidade duradoura do solo. Assim, destrói ao mesmo tempo a saúde física do trabalhador urbano e a vida intelectual do trabalhador rural.”( K Marx, O Capital III. Cap. XVII)

 

Marx n’ O Capital observa como a destruição da natureza promoveu a busca do lucro com uma urbanização e industrialização descontrolada, isso agiu sobre o meio ambiente levando que rios, montanhas, mares e florestas fossem destruídos para dar lugar a agricultura de larga escala. A exploração de combustíveis fósseis e as madeireiras trouxeram para perto patógenos que viviam a milhares de anos na vida selvagem e passaram aos alimentos e animais de criação industrial infectando humanos que não tem imunidade.

Marx observou isso na crise da fome na Irlanda no meio do século XIX, observou que a Crise das Batatas não era apenas o fungo que estava dentro do tubérculo e sim, a devastação produzida pela expropriação das terras e do modo de viver,  a escravidão a qual o trabalhador  irlandês foi jogado dentro do capitalismo; e a miséria decorrente da invasão e do colonialismo.

O capitalismo era denunciado ali como responsável pela pobreza e a perda de qualidade da vida. Ontem como hoje, o capitalismo, em seu movimento metabólico, só pode continuar se destruir a natureza e o próprio planeta.

 

 

AS LÁGRIMAS DE POLIANA

As Bolsas de valores do Brasil, Europa, Inglaterra e EUA voltaram a crescer no fim de maio, com uma aparente retomada do emprego nos EUA e Europa. Essa euforia foi manifesta pela injeção de imensos fundos em grandes corporações a taxa zero ou abaixo de zero com apoio a fábricas de carros, Cia aéreas, fábricas de aviões, de lazer etc

Esse montante de capitais foi mobilizado por bancos centrais (característica central da financeirização da economia), ao sistema financeiro. Marx chamou isso de capital fictício. A injeção no sistema financeiro deverá acontecer até o fim do ano e representará cerca de 25% do PIB mundial, um montante em torno de 20 trilhões de dólares. Esse crescimento é alimentado por uma fé de que o ano de 2020 terminará, surgirá uma vacina milagrosa e que no ano de 2021 tudo voltará a normalidade.

Personalidades tão dispares como Steven Mnuchin, secretário do tesouro EUA, Kevin Hassett —consultor de economia da Casa Branca— e, na mesma toada os keynezianos: Larry Summer , Paul Krugman , Robert Reich e o herdeiro da coroa britânica, Príncipe Charles compartilham dessa fé sendo acompanhado até por analistas marxistas como David Harvey de  que nascerá um mundo melhor!

Se as bolsas e parte significativa dos pensadores das classes dominantes andam assim, devemos lembrar que antes da pandemia a economia já estava apresentando sinais de uma forte crise econômica, o mesmo valendo para a estabilidade política

A rentabilidade das empresas estava em baixa, excetuando as gigantes da informática que mostravam lucros.

O EUA recuará 9.4% este ano, a China, 6%, UE cairá 8,7% Nos países emergentes: Argentina perderá 10%, Brasil, 7% e o México 9% todos terão um recuo de 10 anos em seu crescimento (isso num cenário otimista).

Apesar dos investimentos massivos, isso não impedirá que as tendências da economia e da sociedade estadunidense e mundial continuem sua tendência a uma baixa.

Essa baixa será efetuada por algumas tendências centrais:  a) Tendência que milhares e milhares de pequenas empresas e pequenos negócios não tenham fôlego para aguentar um longo período de quarentena e tendam a sumir. Isso acontecerá especialmente com bares, restaurantes, indústria de lazer e turismos que foram um dos principais sustentáculos da recuperação da crise de 2007/8; b)  Empresas com maior fôlego, tendem a engolir as mais frágeis e pequenas; c) Com isso  milhões de empregos também deverão desaparecer; d) Informatização de postos de trabalho, ou seja, o  cenário tende apresentar uma piora e não melhora a curto prazo

O TRIUNFO DA MORTE

Se o cenário internacional, contando com algum planejamento é esse, a “anárquica” realidade nacional apresenta a seguinte condição:

Tivemos o deslocamento do segundo maior montante do continente americano ao combate ao covid 19. Esse deslocamento concentrou mais de 2 trilhões de dólares nos grandes conglomerados financeiros, empresas de telemáticas, automobilística, bancos, seguradoras etc. O que explica de um lado a divisão interna entre o capital monopolista financeiro favorável ao isolamento social e de outro lado, o capital circulatório, a burguesia comercial, burguesia industrial e a média e pequena burguesia  favorável  a volta a “normalidade “

Fração Discurso Classe-apoio
Burguesia comercial e de serviços (Brasil 200) Defesa do isolamento vertical e contra as proteções sociais e trabalhistas. Contraposição riscos do Covid 19 x perdas econômicas Pequeno e médio capital, trabalhadores informais, desorganizados e interpelados pelo alto, através de ilusão ideológica.
Burguesia industrial (CNI, Fiesp) Defesa do isolamento vertical. Evocação do interesse nacional através da manutenção das atividades produtivas e dos empregos.
Agronegócio (CNA, Faesc, Faep, Farsul, Faemg, Aprosoja-MT, Abrafrigo) Defesa do isolamento vertical. Evocação do interesse nacional através do risco de desabastecimento das cidades e manutenção dos empregos
Capital bancário nacional Defesa do isolamento social como meio mais eficaz para a recuperação da economia. Classes médias e frações trabalhadoras favoráveis ao isolamento social com proteção social
Burguesia financeira associada Defesa da estabilidade política do governo
Indústria automotiva (Anfavea) Defesa do isolamento social como meio mais eficaz para a recuperação da economia
Telecomunicações (SindiTeleBrasil) Defesa do isolamento social e cooperação com os órgãos oficiais para a transmissão de dados e aumento da oferta de internet.
Indústria de alimentos e supermercados (ABIA, ABRAS, APAS) Defesa do isolamento social e “responsabilidade com a saúde e bem-estar dos brasileiros”.
Pequenos e médios produtores rurais (Faesp, Famato, Famasul, Faeg) Defesa do isolamento social e “responsabilidade com a saúde e bem-estar dos brasileiros”

*tabela reproduzida do artigo: As frações burguesas na crise do Covid-19: apontamentos preliminares. André Flores Penha Vallei e Octávio F. Del Passoii (https://marxismo21.org/wp-content/uploads/2019/12/As-fra%C3%A7%C3%B5es-burguesas-na-crise-do-Covid-19.-apontamentos-preliminares.-vfinal.pdf)

A falta de ação– proposital— do governo e a falta de um plano político anti pandemia,  facilitaram uma divisão clara entre Brazil e Brasil:  Os setores trabalhistas que atuam nas grandes empresas de ponta em tecnologia, juntamente com setores remediados do proletariado e classes médias como professores e funcionários  públicos puderam realizar o isolamento social e mesmo se dedicar ao trabalho remoto, esse setor representa apenas 17% do mundo do trabalho.

As classes trabalhadoras colocadas a emergência da fome, são obrigados a irem trabalhar e com isso se expõem a doença e a morte. A abertura do comércio em pleno pico da pandemia, apenas coloca fim a precária tentativa de controle social sobre a doença.  Assinalamos aqui a vitória de Bolsonaro e da extrema direita sobre seus adversários no parlamento e em governos estaduais de direita, centro-direita, centro, centro esquerda e sociais liberais com isso temos o triunfo da morte !

A maioria da classe trabalhadora, cerca de 70% trabalha em pequenas empresas já sofreram até agora com cerca de 6 milhões de demissões, pois não houve aporte financeiros a estas empresas. Segundo pesquisa de André Calixtre do IPEA, possivelmente teremos após os 2 meses de carência, isso, mesmo com redução de jornada, salário menor durante a crise etc. um aumento no desemprego em torno de 6 a 8 milhões de postos de trabalho.

Outra tendência constante no mundo do trabalho tem sido a Urberização/ Crowdsourcing,  ou seja, a dispersão do trabalho em multidões que prestam serviço a partir de aplicativo, nessa nova configuração, não há mais desemprego e sim uma prestação de serviços feita  à empresas. As empresas apresentam-se como mediadoras entre este serviço e a sociedade. A sociedade por sua vez fiscaliza através de notas o trabalho de quem faz esse serviço.

Também o crescimento do Trabalho Intermitente, ou seja, você vai a empresa e se dispõem ao serviço, por exemplo: a um Buffet,  se as festas estiverem  bombando,  você vai e entra como garçom ou faxineiro, caso inverso, você volta para casa, a empresa não é obrigada a pagar nem o seu transporte;

empreendedorismo: você faz o que é melhor, se sabe fazer pão, vai, faz pão e vai vender nos faróis da Av. holandeses.

Este novo cenário de trabalho precário e informal alcança hoje cerca de 40% das classes trabalhadoras brasileira (e mais de 60% dos maranhenses), a tendência é que chegue ao fim da década com um número próximo a 80%

Trabalho como de funcionários públicos ou pessoas com carteiras assinadas tendem a ser rotulados pelo Capital como privilegiadas e desaparecerem.

OU SEJA

O mundo passa por uma profunda crise econômica, que se manifesta na crise política, com uma imensa ação da ultra direita apontando para construção de regimes autoritários e mesmo ditaduras que se juntou no final do de 2019 a uma crise pandêmica.

 

 

DESIGUALDADE SOCIAL no MARANHÃO

No caso do Maranhão,  a situação estrutural é bem mais grave, a precarização do mercado e das classes ricas podem ser vistas por número objetivos, hoje cerca de 60% da classe trabalhadora é informal, seu rendimento está em torno de 400 reais, sendo que cerca de 56% dos maranhenses vivem com até 200 reais por mês.

A tendência é aguçar a pobreza; aumentar a miserabilidade e, com isso, conseqüências sociais como nível de insegurança e violência que produz “a militarização” da sociedade; falta de perspectiva e futuro com aumento de depressão, suicídio, síndrome do pânico etc.

ENFRENTAMENTO à CRISE e ao GOVERNO Bolsonaro  

O golpe de 2016, significou o fim da experiência social liberal e a retomada das políticas neoliberais, o fracasso nos anos de 1990, em diversos países da América, mostra que a reação popular ao desmonte de seus direitos e de sua parca qualidade de vida pode expressar revoltas e enfrentamentos.

O governo Bolsonaro age como bonapartista, busca apresentar-se como representante de um interesse maior:  o país, a pátria, a nova política sem corrupção, mas em verdade é a expressão maior dos interesses subalternos ao imperialismo e a corrupção. O grupo de sustentação cada vez menor e cada vez mais militarizado – brindado milita no sentido de derrotar as instituições democráticas e estabelecer uma ditadura o que significaria uma derrota histórica à classe trabalhadora e aos setores populares.

A necessidade de barrar o golpe nos coloca em aliança imediata com todos os setores que são contrários a ditadura e favoráveis a democracia, como indicava Engels em sua carta a Turatti  sobre o governo protofascista de Crispi (1895),  se essa frente ampla se manifesta na recusa de uma ditadura, isso não é a afirmação que as classes trabalhadoras devam se submeter a um governo composto por liberais, mas o contrário:  trilhar seu próprio caminho e organização apresentando o socialismo como saída aos oprimidos.

Nesse sentido observamos que as classes trabalhadoras tem um largo caminho a percorrer: nos movimentos sindicais estender sua a ação aos setores precarizados e terceirizados, isso nos pareceu bastante atual e importante, como atesta  as mais de 50 greves e manifestações feitas por bikeboys, motoboys e ubers só o mês de Maio/2020. Organizar cooperativas e também aplicativos capazes de disputar espaços na sociedade, gerando renda aos setores vulneráveis. No plano político apresentar candidatos as eleições capazes de expressar a vontade por direitos dos trabalhadores e dos pobres, porem não se limitar a arquitetura parlamentar, no plano social, observamos que os pobres e os trabalhadores devem barrar a ação governista nas ruas como começou a ser feito (ainda como uma pauta e comando confuso), a partir da ação das torcidas uniformizadas e dos movimentos comunitários.

*PARTICIPARAM  da elaboração: John Kennedy Ferreira (Prof de Sociologia/UFMA), Lierbth Rodrigues Pereira (Graduando em Filosofia/UFMA), Maria Soledad Camejo Casana (Doutoranda em Políticas Públicas/UFMA), Mikael Kenaz Silva Araújo (Graduando em Sociologia/UFMA)  e Raimundo Campos (Doutorando em História/UFF)