Docentes debatem condições de trabalho nos campi da UFMA no Maranhão continental e afirmam ser impossível aula à distância nas condições atuais

O #AprumaDebate que tratou, no último dia 7 de maio, dos desafios para os docentes nos campi da UFMA no continente, contou com as participações da professora Ana Paula Ribeiro Sousa (Campus Bacabal), dos professores Thiago Pereira Lima (São Bernardo) e Ubiratane de Morais Rodrigues (UFMA Grajaú), e mediação do professor Jesus Marmanillo (UFMA Imperatriz).

Na ocasião, foi travado produtivo debate sobre não apenas as atuais condições de trabalho nos campi do continente, mas como se deu esse processo de expansão, como o movimento sindical pode agregar estes trabalhadores na defesa de seus direitos, como as políticas de ajuste fiscal comprometem ensino, pesquisa e extensão e impõem limitações ao desenvolvimento do trabalho e ao retorno social que ele deve produzir, como a falta de política de assistência estudantil efetiva também compromete não apenas o acesso mas a permanência dos estudantes na Universidade, como a falta de técnicos impõe duras rotinas e como a desestruturação das carreiras tanto dos técnicos quanto de docentes impactam de modo particular estas realidades.

Evasão

Ana Paula  destacou que, desde o início, o acesso dos estudantes à Universidade já é cheio de desafios, para eles e para o corpo diminuto de técnicos e professores.  Ainda assim, vários obstáculos vêm sendo superados, chegando mesmo à implantação de uma pós-graduação em Bacabal, além dos cinco cursos de graduação que funcionam no Campus, que conta ainda com a licenciatura de Educação no Campo, com todas as especificidades deste curso.

Ela atribui em boa parte à debilidade da assistência estudantil o elevado índice de evasão, que  chega a 50% antes da metade dos cursos. Com a falta de estrutura, falta espaço até mesmo para os professores realizarem suas atividades.

Na questão sindical, ela ressalta que a distância geográfica é um obstáculo, e que o sindicato precisa melhor se adaptar à realidade multicampia.

Sem verba

Ubiratane traçou um quadro da atual situação em Grajaú, que não difere das dificuldades citadas por Ana Paula em Bacabal.

Em Grajaú funcionam dois cursos de licenciatura interdisciplinar. Para lá, estava previsto outro que, embora não tenha sido implementado, consta nos sistemas como se estivesse. Como em Bacabal, sobram obstáculos: mesmo com apenas dois cursos funcionando, falta espaço inclusive para que os estudantes sejam atendidos por docentes e técnicos. Falta transporte para que os estudantes cheguem até a Universidade, tendo que contar com o apoio da prefeitura. Os cursos funcionam à noite.

Um ponto bastante positivo destacado pelo professor na área da assistência estudantil é a presença de profissionais ocupacionais, como psicólogos e assistentes sociais, o que contribui para a queda nos índices de evasão.

Na carreira, ele desta entre as dificuldades o distanciamento dos centros de pós-graduação, o que limita o campo de atuação para os doutores lá lotados.

Ubiratante também ressalta que o Campus Grajaú funciona sem destinação específica de verba, o que acentua sua total dependência da Sede. Recentemente, a Administração Superior anunciou a transformação de todos os campi do continente em Centros, o que aponta para maior descentralização. Os debatedores apontaram que esperam os efeitos positivos da medida, com a concretização dessa maior autonomia e destinação específica de recursos.

Ele concordou com a debatedora anterior que a distância dificulta o relacionamento do trabalhador docente com seu sindicato, mas apontou também que cada professor e professora deve se conscientizar que faz parte da Apruma, de suas lutas e de suas conquistas. Para ele, o importante papel desempenhado pelo Conselho de Representantes deve contribuir nessa questão.

Quadro no Baixo Parnaíba

A atuação da UFMA na cidade de São Bernardo impacta uma realidade composta por alguns dos municípios com o menor Índice de Desenvolvimento Humano no Estado, pontuou o professor Thiago.

Nessa área de atuação, além de São Bernardo, estão cidades como Santa Quitéria, Água Doce do Maranhão, Santana do Maranhão, Araioses, além de diversos outros não apenas do nosso  estado, mas também do vizinho Piauí.

Lá, o Campus conta com 54 docentes, 30 destes com doutorado e os demais com mestrado e muitos em doutoramento. Funcionam 5 cursos, sendo quatro licenciatura interdisciplinares, entre eles o de Bacharelado em Turismo, que qualifica trabalhadores numa área de potencial para a atividade, pela localização do Delta do Parnaíba, além da rota que integra Ceará, Piauí e Maranhão.

Entretanto, por lá a expansão também se deu com limitações, inclusive estruturais, tal como verificado nos relatos anteriores: o espaço físico, por exemplo, não acompanhou o próprio processo de expansão, que, por sua vez, não acompanhou a quantidade de estudantes que entram para a Universidade em São Bernardo. O professor ressaltou ainda a debilidade do acesso às tecnologias de informação, segundo ele um problema verificado de forma aguda em todos os campi do continente. Dessa forma, ele é enfático: “é impossível o retorno das aulas nesse momento, nesse contexto, tanto presencialmente quanto à distância“, referindo-se à necessidade de manter o distanciamento social, e à falta de estrutura e preparo prévio para o retorno remoto das atividades.

Ainda sobre a expansão, os debatedores pontuaram que ela se deu sem participação democrática da comunidade universitária.

Democracia, aliás, é item que continua raro: apontam como exemplo a frequente falta de chamada para que os campi do continente participem da construção de normativas – que muitas vezes não se adaptam à realidade multicampia, algumas delas fundamentais, como as relativas a PID (Plano Individual Docente), PDI (Plano de Desenvolvimento Institucional), Plano Pedagógico etc, sem contar a falta de eleição para direção de centros no continente: nesta questão, ressaltaram novamente ser um avanço a transformação dos campi em centros, mas questionam como isso vai ser operacionalizado.

Não foi esquecido ainda que a Universidade como um todo tem sob seu pescoço o Future-se, que não dialoga em hipótese nenhuma com a expansão para as áreas onde hoje a Universidade conseguiu chegar.

Como os demais, Thiago também analisou como o sindicato pode ter um papel importante para contribuir para a transformação dessa realidade. Ele destacou que a Apruma vem ampliando suas formas de comunicação com a base, mesmo em tempos de pandemia, a exemplo da transmissão ao vivo que ora ocorria. Sobre sua realidade, ele declarou que, num universo de 54 docentes, ter apenas 13 filiados é pouco, mas que esse é um “processo de luta e de politização do espaço acadêmico”, que portanto demanda maturação. “Fundamental continuarmos nesse processo de chamado aos professores para que não apenas participem da luta específicas, mas para fazerem um sindicato um componente da frente importante nas lutas sociais. Há o desafio de ampliar o diálogo, fortalecer a presença do sindicato nos campi para que inclusive o professor conheça mais profundamente a própria Universidade, para que o professor lute em defesa da Universidade Pública, Laica e Socialmente Referenciada, e lute em defesa de nossos campi. A expansão precisa ser defendida e mantida. Os ataques à Educação chegam aos campi frutos da expansão de forma mais direta, dadas as suas fragilidades”, ele chamou à atenção.

Dialogando com a audiência, chegaram vários questionamentos, como dúvidas sobre remoção, um assunto que interessa de forma direta muitos docentes no continente. Os debatedores pontuaram as debilidades e os avanços já ocorridos em relação ao tema, como as disputas em torno dos códigos de vagas, que historicamente tendiam a prejudicar a lotação de origem. Entre os avanços, o estabelecimento de critérios mais definidos, com regras mais claras, com normativas e editais – um processo que necessita estar sob constante vigilância, inclusive por parte do sindicato. Nesse quesito, os três concordaram: os interesses particulares não podem se sobrepor ao público. Outros questionamentos surgiram, aprofundando, no debate, assuntos como o Future-se e a falta de estrutura para o trabalho remoto que se tenta impor em meio à pandemia. Confira o inteiro teor do debate no vídeo:

UFMA NO CONTINENTE: desafios para os docentes

A live de hoje abordará o tema "UFMA no continente: desafios para os docentes", com os professores: Ana Paula de Sousa (UFMA – Bacabal), Thiago Lima (UFMA – São Bernardo) e Ubiratani Rodrigues (UFMA – Grajaú). A mediação será do professor Jesus Marmanillo, da UFMA Imperatriz!

Publicado por Apruma Seção Sindical em Quinta-feira, 7 de maio de 2020