Diretoria da Apruma: calendário deve continuar suspenso até garantia de retorno com segurança sanitária, e EaD não pode ser utilizada neste momento como substituição ao ensino presencial – Veja Nota

DIRETORIA DA APRUMA SE POSICIONA CONTRA O USO DE TECNOLOGIAS EDUCACIONAIS À DISTÂNCIA EM TEMPOS DE PANDEMIA DA COVID-19 NA UFMA

 

Na última segunda-feira, dia 04 de maio de 2020, a Universidade Federal do Maranhão (UFMA), lançou, por meio de seu Sistema Acadêmico, questionário online aos discentes, docentes e técnicos-administrativos sobre o “uso de tecnologias educacionais a distância em tempos de Covid-19”. A intenção da pesquisa é clara: implantação da “educação à distância”. Colocamos entre aspas porque compreendemos que a modalidade à distância é ensino e não educação.

Estamos vivendo um isolamento físico imposto, que possui dimensões diversas que implicam profundamente na nossa relação com o trabalho cotidiano (seja o trabalho docente ou o trabalho doméstico). Desse modo, é imperativo ressaltar que não estamos de férias, ou afastados a pedido ou com tempo “livre” – ocioso – durante a pandemia.

Vários professores, técnicos-administrativos, estudantes e terceirizados(as) estão sentindo forte impacto na saúde psíquica e, lamentavelmente, alguns casos de falecimento por Covid-19, entre amigos e familiares. Portanto, nesse momento, o cuidado com a vida deve ser prioritário na discussão que envolve o trabalho docente e a relação ensino-aprendizagem no âmbito da UFMA.

O esvaziamento do debate sobre a utilização dos recursos tecnológicos, no contexto dessa pandemia tem sido recorrente e tem se mostrado como forte estratégia de agentes que querem a qualquer custo garantir o cumprimento do calendário acadêmico sem inclusive considerar quantos discentes, docentes e técnicos-administrativos serão vítimas dessa cruel doença que atinge todo o globo.

O Brasil é profundamente marcado por desigualdades sociais. O estado do Maranhão não se diferencia da realidade nacional. Pensando a universidade organizada em multicampi, há cidades onde existem maiores dificuldades ao uso e acesso às tecnologias, pensando na cobertura de redes e condições socioeconômicas do corpo discente.

Há um número significativo de discentes que não possui acesso à internet e uma parcela substancial que tem acesso à internet com uma qualidade inferior ao desejável para acessar plataformas e realizar atividades. Conforme o Comitê Gestor da Internet no Brasil, é falso afirmar que o acesso à internet foi universalizado. Mais de 40% das residências não possuem computador e, dentre estes, poucos possuem softwares atualizados e com capacidade de armazenamento. Ainda, segundo dados do Observatório Social da COVID-19, recém-criado pelo Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich- UFMG), cerca de 20% dos domicílios brasileiros – o equivalente a 17 milhões de unidades residenciais – não estão conectados à internet, sendo que na maior parte dos que têm acesso este é realizado por meio de celulares, o que não assegura conectividade compatível com as plataformas de EaD.

O Ensino a Distância, nesse contexto, como substituição ao ensino presencial, se caracteriza como elitização da educação, aprofundamento das desigualdades e mudança brusca e artificial dos padrões de sociabilidade das gerações mais jovens. O trabalho remoto não substitui o trabalho presencial, sendo limitado em muitos aspectos e pode ter grandes variações a partir da área de conhecimento de cada curso na instituição.

As condições de moradia e estudos, nesse contexto, também devem ser levadas em consideração, pois, o uso da tecnologia não pode ser desvinculado das condições de habitação dos sujeitos envolvidos no processo educativo. Sem falar da flagrante e violenta invasão dos domicílios de docentes e discentes pelo trabalho remoto, além de requerer uma estrutura de acesso à internet de hardware e software que sejam totalmente financiados pelos já parcos recursos dos trabalhadores e estudantes.

Não nos colocamos contrários à utilização de recursos tecnológicos na educação presencial, no entanto, essa utilização deve ser acompanhada por condições de acesso e democratização da internet para todos e que os custos sejam de responsabilidade do estado.

Comprometidos com a defesa da educação pública vinculada ao desenvolvimento humano e à defesa da igualdade social é que nos colocamos contrários à implementação de EaD (aulas remotas) como retomada às atividades do calendário acadêmico e como forma substitutiva ao ensino presencial na UFMA.

Por fim, defendemos a continuidade da suspensão do calendário acadêmico até que as autoridades sanitárias garantam a segurança necessária ao retorno das atividades, e que ao término do isolamento físico se reorganize as atividades na universidade com uma ampla e democrática discussão entre docentes, discentes e técnicos-administrativos.

 

São Luís, 11 de maio de 2020.

Diretoria da APRUMA – Seção Sindical

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