“É Classe, mas também é Raça!”: que o brado do professor Luiz Alves Ferreira continue a nos incomodar e a orientar nossas lutas. Luizão, Presente!

Encantou-se na madrugada chuvosa deste 16 de março de 2020, Luiz Alves Ferreira, vulto impossível de ser medido ante a sua estatura sempre agigantadamente presente em nossas lutas.

Faremos, com pesar, uma tentativa, muito provavelmente insuficiente, mas necessária, de homenagear sua memória, lembrar sua jornada, abraçar seus parentes e inúmeros discípulos em sua passagem por este plano, no qual dedicou-se, de modo literalmente incansável, a lutar contra as injustiças da exploração dos trabalhadores e também direcionadas à população negra do país e do mundo.

Nascido em Saco das Almas, comunidade quilombola do município de Brejo, no Maranhão, Luizão, Doutor Quilombola, graduou-se em Medicina pela Universidade Federal do Maranhão, em 1971. Entretanto, sua trajetória de militante e intelectual das classes oprimidas e do Povo Negro vem mesmo de antes, atuando no movimento estudantil, no Grêmio em sua cidade e também na mesma entidade no Liceu Maranhense, em São Luís.

Concluído o curso de Medicina, parte para Residência Médica na Universidade de São Paulo, na cidade de Ribeirão Preto. Sobre esta fase de sua vida, descreveu para o Documentário de 40 Anos da Apruma, entidade sindical dos professores da UFMA, da qual sempre teve orgulho em se apresentar como um de seus fundadores, em 1978: “Não é fácil ser negro e estudar num local onde as relações sociais são preconceituosas, discriminatórias e racistas”, apontou.

Essa forma direta de dizer as coisas sempre foi uma das características de Luizão, que dominava com maestria a arte de aliar sinceridade com respeito e carinho para com seus interlocutores, sem contudo se afastar um milímetro das críticas que julgava necessárias.

Retornando a São Luís após a Residência, em 1974, ingressou no quadro docente da Universidade Federal do Maranhão, primeiramente como professor temporário, vindo a se tornar efetivo em sequência. Do ambiente acadêmico nunca se afastou. Em tempos recentes, eram frequentes suas visitas, às vezes de máscara – equipamento obrigatório para preservar sua saúde já sensível a essa altura – à sede do Sindicato que ajudou a fundar. Na Apruma, colhia com atenção, tecendo suas críticas, os materiais e informes colocados à disposição dos docentes. Levava-os para casa para depois retornar com mais apontamentos a fazer. Nas Assembleias, pontuava a necessidade fundamental de ações mais efetivas contra o racismo. A luta, sempre dizia, diz respeito à classe, mas também à raça, alertava.

Ao documentário da APRUMA, dirigido por Murilo Santos, ele destacou, na sua jornada de militante, a luta contra o arbítrio e a ditadura civil, militar e empresarial, como sempre fez questão de lembrar as características do regime de exceção que a burguesia nacional faz questão de esconder. “Nunca deixei de participar das lutas da APRUMA, [que representa] um processo importante de democracia dentro da Universidade”, declarou para o professor-cineasta.

Concomitante à fundação da Apruma, Luizão aparece na construção de outra entidade cuja relevância para as lutas sociais do Maranhão é inconteste. Sua luta contra o racismo e o colonialismo presente no pensamento acadêmico de seu tempo – e mesmo atualmente, como se pode depreender em suas críticas recentes –  impulsionou-o como contribuinte fundamental na criação do Centro de Cultura Negra do Maranhão, CCN, também nos anos 1970. Este ano, o Bloco Afro Akomabu, ligado ao CCN, teve como tema de seu carnaval Luizão: guerreiro quilombola, símbolo da luta contra o racismo”, cantado no maior bloco afro do estado pelo também professor, cantor do Akomabu e antropólogo, Carlos Benedito Rodrigues da Silva, o Carlão Rastafari.

Mesmo com suas críticas ao que considerava colonialismo no pensamento hegemônico da Academia, Luizão, ao exemplo de suas relações com o movimento negro e com o movimento docente, nunca deixou de militar nesta seara, tendo sido secretário regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) no Maranhão por suas vezes, além de membro do Conselho Estadual de Ciência e Tecnologia e também membro fundador da Academia Maranhense de Ciência, além de atuante em diversos outros fóruns e conselhos, com destaque para os voltados à saúde da população negra, tanto no Maranhão quando nacionalmente. Na UFMA, foi Chefe do Departamento de Patologia, do qual era professor aposentado, e Chefe do Serviço de Patologia do Hospital Universitário Presidente Dutra. Seu exemplo como docente deixou semente, com sua filha Luciana Brandão Ferreira seguindo seus passos, sendo hoje professora do Departamento de Turismo e Hotelaria na mesma Universidade à qual seu pai dedicou a vida. Como ele, a professora Luciana também é membro da Apruma.

Como último esforço de prestar-lhe uma homenagem que esteja à altura, deixamos a seguir algumas imagens da História de Luizão no Movimento Docente, e a homenagem que lhe prestou o atual presidente do Sindicato que ajudou a ser o que é hoje como referência nas lutas sociais no Maranhão. A Luizão, Bartolomeu Mendonça, presidente da Apruma, escreve: “Com o médico e professor Luizão, aprendi que simplicidade é uma opção humana e que ao se decidir por ela, humaniza-se a si mesmo e aos outros”. Veja íntegra de sua nota ao final desta matéria.

Luizão, Presente!

 

Luizão, com Graça Carvalho, funcionária aposentada da Apruma, e com os professores Sirliane Paiva, Antonio Gonçalves e Luciana Ferreira, sua filha.

RESUMO

Luiz Alves Ferreira, o professor Luizão, nascido no Quilombo de Saco das Almas, cidade de Brejo, no Maranhão, foi desde sua juventude militante, tendo participado do Grêmio Estudantil em Brejo, posteriormente também no Liceu, em São Luís. Ingressou no curso de Medicina da UFMA em 1971 e posteriormente fez residência em Ribeirão Preto/SP, retornando a São Luís em 1974. Ajudou a construir a APRUMA, Associação dos Professores da UFMA, fundada em 1978, sindicato classista e de resistência à ditadura civil, militar e empresarial, como ele classificou o estado de exceção instaurado em 1964 no país. Também foi fundador do Centro de Cultura Negra do Maranhão, CCN, através do qual foi homenageado pelo Bloco Afro Akomabu no Carnaval deste ano de 2020. Luizão, como era conhecido nas lutas sociais das quais sempre participou em toda sua vida, se definia como militante das questões políticas, culturais e educacionais. “Não é fácil ser negro e estudar num local onde as relações sociais são preconceituosas, discriminatórias e racistas”, costumava dizer sobre sua trajetória.

Doutor Luizão: além do espaço-tempo*

O professor Luizão, reconhecido, em vida, pela sua aguerrida militância em defesa das populações negras e quilombolas do campo e da cidade – contra toda forma de racismo -, também deu uma imensa contribuição para o avanço da ciência no Estado do Maranhão.

No seu local de trabalho, a Universidade Federal do Maranhão, além de ter formado dezenas de profissionais da medicina com a percepção étnica e social do cuidado médico, participou ativamente na organização do movimento docente, foi membro fundador da APRUMA – Seção Sindical, que defendeu durante toda sua trajetória profissional, mesmo já aposentado.

Com meu amigo Luizão, aprendi a delicadeza de uma luta que transcende espaço, tempo, vida. Que o saber, é saber, não importa se da academia ou do quilombo, o saber é um patrimônio humano, e que, por isso mesmo, é possível – e se deve – aliar a sistematização da academia com a defesa dos grupos e populações mais vulneráveis.

Com o médico e professor Luizão, aprendi que simplicidade é uma opção humana e que ao se decidir por ela, humaniza-se a si mesmo e aos outros.

Nossa gratidão!

Humano, Quilombola, Professor, Doutor, Luizão, presente!

* Bartolomeu Mendonça

Presidente APRUMA – Seção Sindical – Gestão-2020-2022