15 anos sem Irmã Dorothy: professor da UFMA resgata passagem da religiosa pelo Maranhão

Dorothy Mae Stang, religiosa católica naturalizada brasileira, executada aos 73 anos em 12 de fevereiro de 2005 na cidade de Anapu, no Pará, por defender a Amazônia e seus povos, teve, durante sua atuação, proximidade com o Maranhão. Murilo Santos, cineasta e professor da UFMA, membro do Conselho de Representantes da Apruma, que acompanhou por muitos anos o trabalho desenvolvido pelas Irmãs de Notre Dame de Namur, Congregação da qual ela fazia parte, relembra esta história, neste dia que marca os 15 anos do assassinato de Irmã Dorothy:

15 ANOS SEM DOROTHY STANG – Fotografia feita em 1980, no antigo Seminário Santo Antônio, São Luís –MA, durante um encontro das Irmãs de Notre Dame de Namur. A foto é muito representativa para mim, pois registra a minha relação com essas incríveis mulheres de luta. Entre as décadas de 1970 e 1980, a convite da Irmã Barbara English e irmã Anne Caroline (ausentes na foto), documentei diversas ações dessas mulheres nas comunidades da zona rural de São Luís. Comunidades afetadas pela implantação do Programa Grande Carajás. Dorothy Stang (círculo amarelo na foto acima) iniciou seu trabalho na cidade de Coroatá, Maranhão, sempre lutando contra grileiros e a favor dos camponeses. Mudou-se para Anapu, Pará, acompanhando as famílias com as quais trabalhava aqui no Maranhão. Irmã Dorothy foi assassinada em em 12 de fevereiro de 2005.

A cidade de Anapu, onde Dorothy foi assassinada por lutar junto aos camponeses pela reforma agrária, tem um histórico de violência imposto pela grilagem e pelo latifúndio. Do assassinato da Irmã Dorothy para cá, já foram 17 assassinatos cometidos a mando de fazendeiros da região, com apenas um mandante preso. Seu próprio caso teve um dos mandantes absolvido e o outro somente foi punido 14 anos depois, em 2019.

Em vez de punir mandantes, as autoridades locais protegem o latifúndio. Foi assim que em 2018 outro religioso que acompanha as comunidades locais e denunciava a violência dos grileiros passou três meses na prisão, fato denunciado largamente por entidades ligadas aos Direitos Humanos, entre elas a Apruma (veja abaixo Nota publicada à época). Uma das testemunhas que desmontavam as denúncias contra o Padre Amaro, preso a mando das milícias do campo em Anapu, sofreu ameaças e teve de sair da região. Ao retornar pensando que não corria mais riscos, foi assassinado (veja abaixo). Como reconhecimento pelo seu trabalho e também como forma de dar visibilidade ao caso e a essa situação, Padre Amaro recebeu, no final de 2018, o Prêmio João Canuto de Direitos Humanos, no Rio de Janeiro (link a seguir).

A presença das Irmãs de Notre Dame no Maranhão contribuiu com diversas formas de resistência de comunidades ameaçadas, com forte atuação durante a ditadura militar, na implantação do Projeto Grande Carajás, contra a ameaça de perda de seus territórios pela tentativa de implantação de um polo siderúrgico na Ilha do Maranhão e, mais recentemente, nas disputas da sociedade contra a alteração do Plano Diretor da capital maranhense para favorecer indústrias e a especulação imobiliária, luta essa que segue até os dias atuais. No início de 2018, as duas remanescentes da Ordem no Maranhão, a maranhense Irmã Sandra e a norte-americana naturalizada maranhense Anne Caroline, que segue sua atuação hoje com seus mais de 90 anos, tiveram de deixar São Luís, sendo transferidas para sua casa na periferia de Belém do Pará, onde residem junto com outras irmãs da ordem, na mesma casa onde Dorothy também morou. Irmã Anne prossegue acompanhando as situações de conflito no Maranhão (como a questão quilombola em Alcântara), onde está sempre que possível, percorrendo as estradas que ligam Belém a São Luís em ônibus que deixam a capital paraense até a rodoviária na Ilha do Maranhão.

A força e a resistência de mulheres como Dorothy, Anne, Sandra e as demais Irmãs de Notre Dame não apenas são impressionantes como necessárias nos dias atuais. Exemplo da necessidade dessa resistência é o fato que neste dia, que marca 15 anos da execução de Dorothy Stang, Bolsonaro esteve reunido com a bancada ruralista para “pedir apoio” aos projetos que invadem áreas indígenas. Que a força que estas mulheres representam sirva de exemplo e ânimo na resistência a esses ataques.

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