Resex Tauá-Mirim realiza primeira feira da agricultura familiar na UFMA

Um sucesso. Foi assim que as comunidades participantes e os apoiadores da I Feira da Reserva Extrativista de Tauá-Mirim (Resex Tauá-Mirim) avaliaram a realização deste evento, que aconteceu no Campus do Bacanga nesta quinta-feira, 5 de dezembro.

A Resex existe e resiste

Muitas das pessoas que se achegavam para adquirir os produtos ficaram surpresas ao saber que na capital maranhense ainda é possível produzir, sem veneno, alimentos como hortaliças, azeite de coco babaçu, aves, pescados e mariscos, frutas das mais variadas espécies, entre outros víveres e também uma produção de artesanato que marca toda uma região – no caso da Resex Tauá-Mirim, formada por mais de uma dezena de comunidades em que a presença do poder público praticamente se limita a sufocar seus moradores com grandes empreendimentos poluentes, sonegar serviços de direito dos habitantes e deixá-los na invisibilidade, contribuindo, assim, para comprometer a segurança alimentar de toda a cidade: se o que é produzido na região for comprometido com a cada vez mais crescente expropriação territorial das comunidades e implantação de projetos que, ao contrário do discurso, não geram empregos em profusão e degradam a região, a capital inteira vai sentir, pois, ainda que muitos não saibam, é de lá que vem boa parte do que é consumido na Ilha, como os alimentos listados acima.

O conluio entre o empresariado local, grandes corporações e o poder público em todas as suas esferas (federal, estadual e municipal) tem negado, até o momento, o reconhecimento “oficial” da Resex de Tauá-Mirim, reivindicada pelos seus moradores desde 2003, e cujos estudos que concluíram pela sua viabilidade encerraram-se em 2007. Por várias vezes o governo federal chegou a anunciar a criação da Resex, mas pressão do empresariado impediu a oficialização. Em 2015, num ato de insurgência, bravura e resistência, Assembleia dos Moradores realizada na comunidade Taim declarou criada a Resex e instituiu seu Conselho Gestor, mesmo com a indiferença das autoridades.

A Feira realizada nesta quinta-feira na UFMA é uma demonstração de que, a despeito da pressão a que a região está submetida, a Resex é uma realidade.

A I Feira foi, também, um grito de resistência e um pedido de socorro. O cenário descrito acima (de ameaças às comunidades e consequentemente à segurança alimentar na capital) se agravará caso seja aprovada a alteração do Plano Diretor da cidade da forma que está prevista na proposta enviada pela Prefeitura à Câmara de Vereadores.

Neste momento, realizam-se, com a ausência da quase totalidade dos vereadores, num prenúncio de cartas marcadas, as últimas audiências públicas antes da votação naquela Casa. A proposta, que atende interesses de indústrias e do setor da construção civil, pode acabar com toda essa produção, além de pôr um fim também a uma história centenária, como a representada por comunidades como Cajueiro, Taim, Rio dos Cachorros, a das comunidades da Ilha de Tauá-Mirim, Vila Maranhão, Maracanã, entre outras inscritas no perímetro da Resex.

Se a proposta de revisão passar na Câmara do jeito que está, 41% da zona rural irá desaparecer, levando com ela toda a história de uma parte importante de São Luís. A julgar pelas audiências realizadas pela Prefeitura antes do envio ao Parlamento, as autoridades não estão propensas a contrariar os detentores do capital, já que praticamente todas as sugestões feitas para barrar ameaças como essas não foram levadas em consideração e apensadas ao projeto antes de começar a discussão no Legislativo.

Dessa forma, a I Feira da Resex cumpriu ainda o objetivo de trazer essa discussão à luz, demonstrando na prática o que a Zona Rural faz pela cidade: quem lá esteve, comprou alimentos frescos e saudáveis a preços bem abaixo do praticado nos supermercados da capital, com uma qualidade e pureza superior – e por isso bastante elogiada pelos presentes. Os comunitários deverão levar ainda sua produção para a Câmara Municipal, para confrontar o discurso de que a redução da Zona Rural se adequaria à realidade já que na área não são mais produzidos alimentos: as comunidades demonstrarão justamente o contrário, e o quanto o poder público ignora o que realmente acontece na cidade.

Também já está prevista a realização da segunda edição da Feira no primeiro semestre letivo do ano que vem no Campus do Bacanga. Enquanto isso, acompanhe as discussões e participe das mobilizações para que esta parte da História – e da própria cidade – não se perca, comprometendo as vidas de milhares de famílias para atender interesses de poucos.

Dessa forma, será possível lutar por qualidade de vida e também expressar solidariedade para com a população, a exemplo do que fizeram moradores da Reserva Extrativista de Cururupu, que participaram da Feira em apoio à Resex Tauá-Mirim (a Resex Tubarão, no município de Humberto de Campos, também já demonstrou interesse em participar da próxima edição).

A Feira realizada pelo Conselho Gestor da Resex foi possível ainda graças ao apoio de entidades como Apruma, MST, Associação Agroecológica Tijupá, da UFMA, que cedeu o espaço, e do GEDMMA, grupo de pesquisa que desenvolve, há anos, extensão na área da Resex Tauá-Mirim.

A seguir, imagens da Feira, dos produtos adquiridos por professores, técnicos, estudantes, terceirizados e demais participantes, e também uma mostra da arte produzida retratando esse momento, além de momentos prévios, da colheita dos alimentos nas comunidades antes de serem levados à Feira (fotos produzidas pela Apruma, GEDMMA, comunidades e demais apoiadores). Siga acompanhando nossos informes para participar da próxima edição!