Apruma lança documentário 40 Anos de Lutas e Conquistas na Semana do Docente: assista!

Como parte das atividades da Semana do Docente, realizada pela Apruma por conta do Dia dos Professores, a Seção Sindical lançou, na última terça-feira, 15, o documentário do cineasta e professor Murilo Santos, “40 Anos de lutas e Conquistas“, sobre a gênese do movimento docente na Universidade Federal do Maranhão.

O filme, que pode ser visto na íntegra ao final desta matéria (para os docentes, há cópias disponíveis na sede do Sindicato), mostra a primeira mobilização para valorização do corpo docente, encampada pelas professoras Elizabeth Beserra Coelho e Maristela de Paula Andrade, então horistas, como boa parte dos demais, que nem contrato assinado com a Universidade tinham à época, embora exercessem regularmente suas atividades. “Ali percebemos que precisávamos criar uma entidade, e essa articulação deu impulso”, conta a professora Beta (que é como a professora Elizabeth é chamada por seus alunos), no documentário.

A história do cinema no Maranhão passa pela Universidade

Esta atividade, que foi a segunda de três programações feitas pela Apruma na Semana do Docente (veja mais a seguir), contou com a exibição do filme, a apresentação de outro vídeo, de autoria do professor Micael Carvalho, da diretoria da Apruma, mostrando conquistas recentes do movimento, além de coquetel, confraternização e música ao vivo com Tássia Campos. Confira o vídeo de Micael Carvalho:

O diretor Murilo Santos também conversou com os presentes.

Ele destacou o trabalho de produção exercido por Tamires Morais, Relações Públicas da Apruma, que contatou os entrevistados para o filme, além de ter assessorado em todo o processo de realização da obra.

Outro destaque dado pelo professor foi a participação da Universidade Pública na história do audiovisual maranhense, citando, entre diversos exemplos a realização do Festival Guarnicê de Cine e Vídeo.

“Estou aqui conversando com colegas. Aqui, sou professor, e minha situação neste momento, mesmo como cineasta e empregando as técnicas do cinema, é, e era, durante as filmagens, de um professor ouvindo os colegas”, explicou o professor Murilo, do Departamento de Artes da UFMA.

Homenagem

O lançamento do filme também lembrou o falecimento de um dos entrevistados, Celso Veras, professor aposentado do Departamento de Economia, que durante o documentário fez um percurso das lutas da Apruma relacionando-as com a conjuntura da época. Seus familiares prestigiaram o evento, que não pôde mais contar com sua presença.

1978, luta pela democracia em ebulição e a batalha por uma Educação Pública, Gratuita, Laica e de Qualidade; 2019, resistência que segue

Entre os acontecimentos marcantes do ano de fundação da Apruma, a luta pela redemocratização, da qual o Sindicato também foi protagonista, e o aparecimento de outros focos de resistência, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT) que, no âmbito da Igreja Católica, é fundamental na batalha pela Reforma Agrária e contra a violência no campo.

No filme, o professor Hipólito Cavalcante Correa, aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica, destaca a Carta do Bacanga, documento de fundação da então Associação de Professores. Já a professora Josefa Batista Lopes, do Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, contextualiza o momento de surgimento da Apruma com a eclosão das greves do ABC, em São Paulo.

Josefa relembra ainda a história de perseguição ao movimento docente protagonizado pelo “reitor-interventor” da Universidade, Cabral Marques, chegando a expulsar a Associação do Campus. Ela visita, no filme, a sala nos fundos da Igreja dos Remédios, em São Luís, onde a Apruma buscou abrigo, juntamente com outras instituições de resistência. Ela rememora também uma história que se passou na época e que depois se repetiu em tempos recentes, com a criação de chapas pela reitoria para “quebrar” o movimento docente – mesmo em nível nacional, como, por sua vez, lembra em seu depoimento o professor José Policarpo da Costa Neto, aposentado do Departamento de Oceanografia e Limnologia, houve em tempos recentes a criação de um sindicato de fachada para tentar quebrar a resistência dos docentes representada pelo Andes Sindicato Nacional. Outra situação de perseguição à época e que foi recentemente quase (re)vivenciada pela Apruma foi a retirada do desconto em folha da contribuição espontânea dos associados: se naquela época foi o representante da ditadura quem tentou acabar com a vida financeira da Apruma, o que viveu-se no início deste ano de 2019 foi a Medida Provisória de Bolsonaro que tentou efeito semelhante para levar as organizações dos trabalhadores à falência.

O professor Agostinho Ramalho Marques lembra que o “slogan” da Apruma é algo vivo, que se confunde com sua História: “é como se fosse um subtítulo do próprio nome da Apruma, a questão da luta pela Educação Pública, Gratuita e de Qualidade. Na época nem pensávamos haver necessidade de acrescentar, como hoje é o caso, a luta por uma Educação também Laica”, completa.

Entre os entrevistados, o professor Antônio Rafael, da Pós-Graduação em Saúde e Ambiente, lembra os ataques à Universidade no período Fernando Henrique Cardoso, quando “só se falava em privatizar a Universidade. Realizamos então uma de nossas maiores greves, luta que era também contra isso. Na época chegamos a ter suspensão de salários, chegando a fazer em Brasília uma greve de fome em 1998”, conta. Dessa greve de fome, além dele, do Maranhão também participaram os professores Durval Prazeres e Cândido Augusto Medeiros Júnior.

Os professores também lembram na obra situações mais recentes de perseguição e também de resistência, como a intervenção no Colégio Universitário em 2012 e, em 2013, a luta pela Casa do Estudante, protagonizada pelos discentes cujo estopim foi a greve de fome do estudante Josemiro, e que contou com apoio dos docentes através do Sindicato. Foi nesse ano também que aconteceu a demissão arbitrária do professor Ayala Gurgel, que “conseguimos reintegrar na justiça num prazo bem curto”, lembra a professora Sirliane Paiva, atual presidente da Apruma, e que participou destes momentos.

O professor James Ribeiro, do Campus Chapadinha, lembrou os fortes movimentos que contaram com a participação docente, como os realizados contra a então Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do teto do gasto público.

Além dessas lutas, para o professor Antônio Rafael a Apruma tem papel fundamental em todas as conquistas obtidas pelo movimento docente ao longo destes 40 anos, sendo “carro-chefe em todas as conquistas na universidade”, posição que a professora Rosilda Dias, do Departamento de Enfermagem, também referendou em seu depoimento. Elizângela Araújo, do Campus Pinheiro, também nota que a Apruma este “presente nos mais importantes momentos na história dos docentes”, o que a deixa orgulhosa “de ser UFMA e de ser sindicalizada à Apruma”.

Apruma e a C&T no Estado

O professor também destaca que a origem da Apruma também é um marco na História da Ciência & Tecnologia no Estado do Maranhão. “A inserção do tema Ciência & Tecnologia na Constituição do Estado do Maranhão teve a participação da Apruma e dos professores, e ela também atuou para que fosse aberto um escritório da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) no Estado, como hoje existe”.

Autonomia

Em sua fala no filme, o professor Flávio Farias relembra as discussões havidas na Apruma à época do Governo Lula e que levaram à desfiliação do Sindicato à CUT (Central Única dos Trabalhadores). Ele avaliou que, longe de representar isolamento para a Apruma, como advogavam os contrários à desfiliação, esta foi necessária para preservar uma bandeira cara ao Sindicato: sua autonomia em relação a partidos e governos.

Movimento Docente e a Sociedade

Vários entrevistados destacaram um aspecto central de seu movimento: a relação com outros movimentos e com a sociedade em geral.

Uma dessas relações se dá através da defesa da extensão universitária, que, segundo Flávio Farias, é o contato da Universidade com a sociedade. Conceição Lobato, professora do Colégio Universitário (COLUN), cita como exemplo, a defesa dos colégios de aplicação e a luta para evitar a retirada destes do âmbito das universidades, bem como a conquista de uma carreira única para os docentes dos colégios e das universidades.

Welbson Madeira, do Departamento de Economia, lembra que a Apruma, desde o seu início, participa ativamente das lutas sociais, quilombolas, indígenas e das periferias. O professor Marcone Antônio Dutra, do COLUN, destaca que essa é uma via de mão-dupla, pois os movimentos sociais também dão sustentação à luta docente.

Antonio Gonçalves, atual presidente do Andes- SN e ex-presidente da Apruma, por sua vez, aponta que as lutas dos professores e professoras representadas pela Apruma não se dão apenas em torno da questão salarial, mas que este é um sindicato que tem se posicionado sobre os diversos temas sociais, como em relação a questões urbanas, etnicorraciais, ambientais, entre outras. “A luta sindical é muito mais pretensiosa que uma luta meramente corporativista, aponta como caminho.

Cláudia Durans, do Departamento de Serviço Social, vai por caminho semelhante, ao destacar a articulação com outros movimentos sociais e sindicatos, apoiando as lutas dos mais oprimidos, na defesa das parcelas “mais humilhadas e mais pobres deste Estado, pois é nas mãos destas pessoas que estão as transformações sociais”, diz.

A professora Diana Costa Diniz, do Campus Bacabal, aponta o papel relevante da Apruma ao se colocar junto a outros sindicatos e movimentos e ao mesmo tempo debater melhores condições de trabalho.

Horácio Antunes, do Departamento de Sociologia e Antropologia (Desoc), aponta a participação da Apruma nas discussões pelo direito à cidade. Para ele, além da ação forte na defesa da Universidade Pública e de Qualidade, houve a aproximação com movimentos quilombolas e indígenas, e ainda a busca da representação docente de um assento no Conselho da Cidade de São Luís (vaga atualmente ocupada pelo professor Élio Pantoja, do mesmo Departamento, e que contribui na resistência a uma proposta de plano diretor que privilegia o lucro de construtoras e indústrias às custas da qualidade de vida na capital maranhense). Mesmo exercendo todos esses papeis, prossegue Horácio, o movimento é presente na resistência às ameaças à democracia e contra os ataques à Universidade Pública. Por isso, opina, os professores e professoras devem atuar constantemente para o “fortalecimento de nossa seção sindical”.

E hoje?

Na atual e delicada conjuntura pós-eleição de Bolsonaro ano passado, os docentes apontam para uma intensificação das lutas em suas análises. Ilse Gomes, do Desoc, é categórica ao afirmar que o desafio do momento é ainda maior. Antonio Gonçalves confessa: “Nunca imaginei ter que fazer a luta ante um governo de extrema-direita com traços fascistas que nos põe num momento difícil”.

Agostinho Ramalho orienta que o papel da Apruma é o de estar na resistência junto a outras instituições ante as ameaças do presente, além de apresentar alternativas contra todas as tentativas de se calar a consciência crítica.

Dessa forma, todos apontam a manutenção da resistência representada pelo movimento docente ao longo desses agora mais de 40 anos de organização. Sirliane vai além: “independente de filiação, se o professor for atingido, a Apruma vai estar perto para defender o professor: ele não está sozinho se ele tem o sindicato”, demarca.

O diretor do filme fez uso de um trecho da Canção para Unidade da América Latina, de Pablo Milanez, para resumir suas impressões desta história que prossegue:

“A história é um carro alegre cheio de um povo contente, que atropela indiferente todo aquele que a negue.

É um trem riscando trilhos, abrindo novos espaços, acenando muitos braços, balançando nossos filhos.

Quem vai impedir que a chama saia iluminando o cenário, saia incendiando o plenário, saia inventando outra trama?

Quem vai evitar que os ventos batam portas mal fechadas, revirem terras mal socadas e espalhem nossos lamentos?

E enfim, quem pagará pelo pesar do tempo que se gastou, das vidas que se perderam e das quem ainda podem se perder?

Já foi lançada um estrela para quem souber enxergar, para quem quiser alcançar e andar abraçada nela!”

 

Além da exibição do filme, houve a reapresentação da exposição de fotos de Sebastião Salgado, realizada pela Apruma nos anos 1990 e retomada agora para marcar o momento. A noite foi fechada com a voz de Tássia Campos cantando para os presentes.

Na véspera, a Apruma presenteou a comunidade universitária com o espetáculo “Milhões de Uns”, do cantor-militante Joãozinho Ribeiro, realizado no Auditório do Centro Paulo Freire, no Bacanga, e que contou com as participações especiais de Fátima Passarinho e Josias Sobrinho.

O cantor presenteou a Apruma com alguns discos, que foram depois sorteados entre os docentes presentes à Assembleia realizada na última quinta-feira, dia 17 e que encerrou a Semana do Docente. A Assembleia Geral da Apruma discutiu o posicionamento da Seção Sindical ante as resoluções do último Congresso da CSP Conlutas, realizado recentemente em São Paulo. Esse assunto será detalhado em matéria especial aqui no site nesta terça-feira (22).

A seguir, momentos das celebrações, em meio à luta, na Semana do Docente, finalizando com a íntegra do filme “40 Anos de Lutas e Conquistas”.