Cai Vélez Rodríguez; novo ministro, também “olavista”, é ligado ao mercado

Como previsto, após polêmicas e demonstrações de incompetência, Ricardo Vélez Rodríguez foi demitido do ministério da educação nesta segunda-feira, 8 de abril. O quadro se deteriorou com a interpelação feita ao então ministro durante audiência na Câmara dos Deputados,quando a deputada Tabata Amaral (PDT/SP) questionou duramente o fato de ele não dominar os dados de sua pasta.

Como péssima notícia, o novo ministro, anunciado como professor por Bolsonaro é, antes de mais nada, um homem extremamente ligado ao mercado financeiro, o que representa riscos ao projeto de Educação Pública Gratuita, Laica e de Qualidade, além de se filiar, também, à corrente olavista presente no governo, afiliado à noção de combate ao “marxismo cultural”:

Mercado

Abraham Weintraub, o novo ministro, 47 anos, é professor da Unifesp, e, apesar de ser anunciado como doutor por Bolsonaro, é executivo do mercado financeiro. Em todas as pesquisas feitas aparece como mestre em Administração na área de Finanças pela Faculdade Getúlio Vargas (2013), com a defesa da dissertação: The Performance of Open-end Brazilian Fixed Income Mutual Funds for Retail Clients, cujo orientador foi Arthur Ridolfo Neto. Obteve um MBA Executivo Internacional (Mestrado latu sensu em finanças) pelo OneMBA, cursado entre 2002 e 2004. Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade de São Paulo (1994). Executivo do mercado financeiro, com mais de vinte anos de experiência, tendo atuado como diretor estatutário no Banco Votorantim, de onde, depois de demitido, saiu para ser sócio na Quest Investimento. Também é Diretor Executivo do CES (Centro de Estudos em Seguridade), fundado junto com seu irmão e que presta consultoria a empresas na área de previdência (texto com base em informações do LinkedIn e Escavador, por sua vez baseadas no lattes).

O novo ministro atua geralmente em “dobradinha” com o irmão, Arthur Weintraub, também professor da Unifesp e hoje ocupante do cargo de assessor especial da presidência da República. Ambos fizeram parte da equipe de transição. Abraham estava lotado na Casa Civil, como número 2 da pasta, donde saiu para o MEC. Antes mesmo da transição, já eram próximos a Bolsonaro desde a campanha, tendo sido apresentados a ele por Onyx Lorezoni. Os irmãos se dizem especialistas em Previdência, não sendo difícil concluir, desde suas ligações com o mercado, o projeto de privatização da Seguridade Social que defendem no governo de que fazem parte (contribuíram na formulação do “programa de governo” nessa área). Em razão disso, se dizem perseguidos na Universidade desde que passaram a compor a equipe do então candidato.

Olavo de Carvalho

Mas não bastam as ligações com o mercado. O projeto conservador e a aliança com o ideólogo do governo, Olavo de Carvalho, antes representado por Vélez Rodríguez, seguem intactos na condução do MEC: Abraham Weintraub é ligado ao grupo olavista do governo, mesmo tendo passado ao largo das disputas em torno do MEC que opuseram militares e seguidores de Olavo de Carvalho.

Mesmo se dizendo, junto com o irmão, não se reconhecer como sendo de direita ou esquerda, talvez numa tentativa de ser visto como técnico e isento, segue na linha dos ataques a um “marxismo cultural” inexistente, tal como seu antecessor.

Para se ter uma ideia, no evento denominado “Cúpula conservadora das Américas“, realizado em dezembro passado em Foz do Iguaçu, o hoje ministro chegou a defender o “método” Olavo de Carvalho de combate a quem pensa diferente (baseado principalmente em xingamentos e achincalhamentos e no estímulo à violência). Na ocasião, declarou que “o socialista é a aids, e o comunista, a doença oportunista”, apontando que uma forma de se combater a “doença” é fazendo como Olavo de Carvalho diz para fazer, ou seja, xingar.

Na oportunidade, o agora ministro disse que é preciso vencer o marxismo cultural nas universidades, o que dá mostras da continuidade às ameaças ao ambiente acadêmico e ao pensamento crítico, que pode ser visto, nessa sanha persecutória, como elemento do “marxismo cultural”.

Aos que defendem a universidade pública, plural, laica, de qualidade e gratuita, a mudança, em vez de representar um avanço, mostra que a luta deve prosseguir, e se fortalecer ante um adversário que se anuncia mais articulado e não menos perigoso.